Levantamento mostra avanço das diárias vendidas e redução da tarifa média, enquanto brasileiros e reservas diretas mantêm papel central nos empreendimentos pesquisados.
Vender mais diárias não significou cobrar mais pela hospedagem nos empreendimentos retratados pelo Anuário BLTA 2026. O levantamento aponta aumento do volume comercializado em 2025, acompanhado de redução da diária média e pouca variação no faturamento nominal. Para quem administra um hotel, essa combinação ajuda a explicar por que olhar apenas para o movimento das reservas pode oferecer uma visão incompleta do negócio.
A pesquisa também permite observar quem se hospedou nesses estabelecimentos, como as reservas chegaram e quais experiências despertaram interesse. O público brasileiro respondeu pela maior parte dos hóspedes, a venda direta liderou os canais de distribuição e atividades de bem-estar e gastronomia estiveram entre as mais solicitadas.
Produzido pela Brazilian Luxury Travel Association (BLTA) em parceria com o Centro Universitário Senac, o estudo reúne resultados de 2025. Participaram, integral ou parcialmente, 63 meios de hospedagem e oito operadoras de viagens. O anuário foi apresentado em agosto de 2026, e seus indicadores oferecem um retrato dos associados pesquisados, sem representar toda a hotelaria brasileira.
Mais vendas, mas sem avanço equivalente na receita
Nos meios de hospedagem participantes, o volume de diárias vendidas cresceu 5,91% em relação a 2024. A diária média, porém, caiu 4,83%, para R$ 3.109. O faturamento bruto estimado ficou em aproximadamente R$ 3,35 bilhões, alta nominal de 0,80%, sem descontar a inflação.
O contraste é o principal ponto de atenção dessa leitura. Um volume maior de vendas pode conviver com tarifas menores e receitas praticamente estáveis. O resultado não revela, sozinho, se a operação ficou mais rentável: para isso, seria necessário conhecer também seus custos e margens.
Outro indicador ajuda a completar o quadro. O RevPAR, receita de hospedagem por quarto disponível, recuou 1,08%, para R$ 1.560. Ele relaciona tarifa e ocupação, permitindo avaliar o aproveitamento comercial da capacidade do hotel. A ocupação informada pelo anuário ficou em 50,18%.
Há um cuidado na comparação: a amostra aumentou de 59 para 63 meios de hospedagem entre as edições. Por isso, o crescimento dos totais não corresponde necessariamente à evolução dos mesmos hotéis. Além disso, o faturamento bruto é uma estimativa que inclui receitas adicionais, como alimentos, bebidas e eventos.
Brasileiros sustentam a maior parte da demanda
Mesmo no recorte do turismo de luxo, o mercado doméstico manteve o maior peso: brasileiros representaram 70% dos hóspedes, enquanto estrangeiros responderam por 30%.
Para o gestor, esse resultado sugere uma pergunta prática: as ações comerciais do hotel estão alinhadas à origem dos clientes que efetivamente reservam? A presença internacional pode ser importante para determinados destinos, mas o levantamento mostra a relevância do viajante brasileiro no conjunto pesquisado.
Isso não estabelece uma proporção ideal para cada empreendimento. Um hotel urbano, uma pousada de praia e um lodge de natureza podem atender mercados distintos. A utilidade da pesquisa está em estimular a comparação com o próprio histórico de hóspedes e com a demanda do destino.
Venda direta lidera sem eliminar a intermediação
O canal direto respondeu por 44% das reservas. As agências de viagens on-line, conhecidas como OTAs, ficaram com 19%. Operadoras, agentes de viagens e o mercado corporativo completam a distribuição apresentada abaixo.

Distribuição dos canais de reserva nos meios de hospedagem pesquisados. Fonte: Anuário BLTA 2026, página 30.
A venda direta foi o maior canal individual, mas os demais, juntos, responderam por 56% das reservas. A leitura é de coexistência: os canais próprios têm força, enquanto intermediários e o mercado corporativo continuam relevantes. Segundo o anuário, essa distribuição permaneceu relativamente estável em relação a 2024.
Para o hotel, o ponto é entender o papel de cada origem na operação. Uma reserva direta também pode envolver gastos com anúncios e atendimento; uma reserva intermediada envolve condições comerciais próprias. Comparar receita, custo de aquisição e conversão ajuda a avaliar o resultado de cada canal.
Na prática, isso passa por acompanhar o caminho entre consulta, orçamento e confirmação. O registro dessas oportunidades em um CRM de vendas para hotelaria pode ajudar a organizar o acompanhamento comercial e identificar motivos de perda.
A experiência também entra na decisão
Entre as atividades mais solicitadas, bem-estar, spa e relaxamento foram mencionados por 93% dos 60 empreendimentos respondentes desse bloco. Gastronomia de alto padrão apareceu em 87% das respostas e personalização dos serviços, em 65%.
Esses percentuais mostram a frequência com que os estabelecimentos citaram cada atividade. Como a pergunta permitia múltiplas respostas, não indicam a parcela de hóspedes que comprou esses serviços nem quanto eles geraram de receita.
A possível implicação para a gestão é avaliar como a experiência complementa a acomodação. Antes de ampliar estruturas, vale observar quais serviços os hóspedes procuram, o que já existe e quais parcerias locais fazem sentido para o empreendimento.
O Anuário BLTA 2026 oferece referências para essa análise. Para cada hotel, a decisão depende de confrontar esses sinais com seu público, seus custos e os resultados da própria operação.